Ao se despedir de uma efervescente vida mundana, Marcel foi levado por sua consciência em direção a si mesmo, em direção a um arquipélago de memórias que fizeram de seu espírito um extraordinário teatro de experimentação. A temporalidade foi a bússola para uma grande viagem na memória. Foi extremamente hábil em formar e plasmar, mas isso não tem a menor importância. Ele derreteu memória e forma dentro de sutis e inexplicáveis arquiteturas, dando lugar a uma nova forma de vida. Eis por que em seus intermináveis volumes (intermináveis porque sem tempo) parece não haver eventos ou personagens, mas apenas uma matéria psíquica – memória, justamente – que se desdobra em um perfeito estilo atemporal.
Proust fornece uma interpretação original da weltanschauung romântica: não existe o mundo, mas somente sua lembrança. O mundo e as coisas são tão mais vãos quanto mais tangíveis, quanto mais presentes na corpulenta realidade. Que se chame “mundo” ou “alta sociedade” não muda nada: o aspecto mais frívolo e vazio daquela realidade já tem um valor simbólico próprio e preciso. Viver até o fim esse símbolo pode redimir, preparar para um novo crescimento. A dimensão temporal ordinária é subvertida numa outra, extratemporal. Mediante a lembrança – que nunca é uma simples rememoração – o homem cria, faz ser o que não era, restitui significado ao que é insignificante.
No último volume da Recherche, O tempo redescoberto, o narrador encontra seu destino no caminho que tinha tomado para evitá-lo. Tropeçando na pavimentação desconjuntada do pátio do Palácio dos Príncipes de Guermantes, é tomado por uma repentina, estática epifania extratemporal. Quando tudo parecia perdido, diante dele se abre um novo caminho. Assim, sem nem ter tomado tal decisão, ele se sente repentinamente pronto a realizar aquela obra de arte para a qual acreditava não possuir nenhum dom. Foi invadido por uma irracional felicidade. A mesma felicidade que sentira poucas outras vezes na vida, como daquela vez em Veneza quando, apoiando o pé sobre duas lajes desiguais do batistério de São Marco, apareceu-lhe a luz da praça e a cidade inteira.
Mas por que essas imagens restituem ao Narrador uma alegria e uma força tão intensas a ponto de torná-lo indiferente até à ideia da morte? Que enigma sutil se oculta por trás disso? Sua felicidade, no mesmo instante – um instante liberto da ordem cronológica do tempo, da necessidade do tempo – transfigura quem o experiencia em um ser extratemporal. Esses fragmentos de existência furtados do tempo são a única felicidade que o homem pode provar. Porém, por mais sublime que seja, essa criação é fugaz. Apenas a arte nos coloca em condição de procrastinar o tempo, pondo-nos no caminho dos signos de um livro desconhecido: o único livro autêntico. A obra de arte preexiste a nós. Um grande escritor não “inventa” um livro: o “traduz” apenas, porque já existe nele. Assim, se para o narrador a descoberta da “ruinosidade” do tempo é motivo de angústia inicial, agora se torna um lugar de verdade, o mesmo lugar no qual todo artista procura deter as raras e preciosas impressões fora do tempo.

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