Falar está entre as ações diárias mais importantes e, pelo menos na aparência, mais simples. Todo dia, na ponte de comando de nossa mente, pronunciamos corretamente e sem esforço uma enorme quantidade de palavras, enquanto na sala de máquinas nossos laboriosos sherpas estão ocupados compondo e decompondo frases, assegurando plena fluidez a nossos discursos. READ MORE
Do Rift Valley ao Silicon Valley
Na longa viagem evolutiva da espécie humana, a consciência facilitou a comunicação entre os semelhantes. Na realidade, já antes da hominização, os primatas possuíam um córtex frontal capaz de elaborar informações, medir-lhes a confiabilidade e catalogá-las para tomar decisões. O seu cérebro era equipado para fazer previsões: a) distinguir o melhor do pior e o útil do prejudicial; b) fundamentar expectativas nas próprias ações; c) agir conforme os objetivos; d) reprimir condutas sociais inapropriadas e assim por diante. Aqueles hominídeos ignoravam a palavra. Expressavam-se por meio dos sons: gritos, vozes de animais, sílabas, sublinhados por gestos e tons diferentes. Mas não palavras. Essas, chegaram mais tarde. Claro, dialogavam com si mesmos. Mas sua linguagem interior era lenta demais para aquele mundo imprevisível e insidioso. READ MORE
O corpo doente
Ainda hoje, a doença do corpo (e, portanto, da existência doente) é a emergência que desfia e extenua o jogo de resultado zero das compreensões, das interpretações, das explicações. A corporeidade doente – a condição do Eu e do mundo que se eclipsam no sintoma do corpo doente, enquanto o sujeito se retrai (dissimulando a si mesmo) numa concretude que apaga toda dimensão metafórica do discurso – pois bem, essa corporeidade doente in ige ainda muitas derrotas à cirurgia, à farmacologia, à psicologia e à própria psiquiatria. Para quem se move em âmbitos terapêuticos, não é raro perceber uma impotência desesperadora pela incapacidade de impedir que um homem escorregue pelo plano inclinado da corporeidade doente.READ MORE
O espelho e o desconhecido
Numa nota à margem do famoso ensaio de 1919, Sigmund Freud escreveu:
[…] Estava sentado, só, no compartimento do vagão-leito, quando, por um tranco mais violento do trem, a porta que dava para o banheiro contíguo se abriu e um senhor idoso, de pijama e um gorro de viagem na cabeça, entrou na minha cabine. Supus que ele tivesse errado a direção ao sair do banheiro, que cava entre as duas cabines, e que tivesse entrado na minha por engano; aproximei-me dele para explicar-lhe o ocorrido e percebi de repente, com grande espanto, que o intruso era minha própria imagem refletida no espelho fixado na porta de comunicação. Lembro ainda que aquela aparição não me agradou nem um pouco.



